…Eram cinco em ponto da tarde quando, às dez para as quatro, o sol se punha no horizonte. Nesse momento, ainda de manhã, Wanderlev tomava o seu martini descontraidamente enquanto roía as unhas cheio de nervos quando ouve soar a campaínha. Era o carteiro a bater à porta.
“Meu Deus, é o resultado das análises!”. Dirigiu-se à porta.
- “Boas tardes.”
- “Olá Luís.” – respondeu Wanderlev, disfarçando o nervosismo. Na sua frente estava uma mulher bonita, que todos os dias, às terças e quintas, lhe trazia o correio à sua casa isolada, no meio do campo.
- “O seu vizinho do lado hoje não está?”
- “Não sei. Deve ter ido às compras. Hoje é o dia em que normalmente ele faz as compras para a semana.”
- “Posso-lhe deixar aqui a correspondência dele?”
- “Claro.” – Retorquiu Wanderlev - “É muita coisa?”
- “Não, não tenho nada para ele.”
- “Tudo bem. Eu depois dou-lhe.”
- “Então aqui tem a sua.”
- “Obrigado. Até para a semana Luís.”
- “Até para a semana. Boa noite.”
Os envelopes tremiam-lhe na mão. Depois de os pousar no móvel de entrada da sua casa, ladeado por dois vazos altos, de barro, com plantas verdes e altas, fazendo lembrar dois guardas do palácio de Buckingham, Wanderlev suspirou e voltou a dar mais um gole na sua bebida, intacta desde que a serviu no seu copo.
Há já alguns dias que esperava o resultado de umas análises que tinha feito por causa da seborreia. O medo de uma doença que desconhecia tinha-o transformado num homem igual ao que sempre foi. Hoje iriam desfazer-se finalmente todas as dúvidas, os medos, a ansiedade. Abriu o envelope com calma, como uma criança que desfaz o presente mais esperado numa noite de Natal. Os seus olhos pousaram imediatamente no meio do papel, em baixo.
“Heloísa Carmelita”, podia ler-se numa letra manuscrita a computador e com alguns rabiscos por cima.
“Heloísa Carmelita?! Mas o que é que isto pode querer dizer?”.
Como um raio, Wanderlev dirigiu-se lentamente à sala, onde tinha deixado a chave do carro. Abriu a gaveta de cima da sua velha secretária de sempre, que ainda não conhecia bem, e tirou de lá três bilhetes pré-comprados, de autocarro.
Naquela zona não existiam transportes públicos, nunca tinham existido.
Wanderlev fez-se à estrada.
Agora faz de conta que eu escrevia um romance (isto de ir à Feira do Livro tem efeitos secundários):
Parte 1 - Introdução
A noite, escura e fria, lembrava a Wanderlev o Verão.
As noites tropicais à varanda da sua cave, em Águeda, passadas sozinho com a sua amante enquanto fumava um belo Cohiba angolano, traziam-lhe à memória as saudades do champanhe francês do Cartaxo, que ele mesmo comprara através do seu empregado.
Wanderlev Tesetsky era um apreciador de bom champanhe, mesmo sendo um homem que não bebia alcoól. Passaram-se anos desde que pela última vez tinha feito chegar aos seus lábios esse néctar, na quinta-feira da última semana.
Hoje, depois de tudo o que aconteceu, a tristeza abatia-se no seu peito e trazia-lhe um sorriso de pai que perde um filho. Wanderlev recordava o seu trajecto até este momento, perdido em pensamentos límpidos, que não deixavam ver o que estava para lá da sua dor. E no entanto recordava: